quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Essa é pro santo.

Constatação minha de alguns dias atrás: encontrei uma forte relação entre o chimarrão, o vinho e a cerveja.

“Elementar, meu caro Watson, os 3 são bebidas.”

Eu sei disso, pô, mas é algo mais profundo. Não são simples bebidas, são bebidas abençoadas.

Estou escrevendo pela manhã (o primeiro paciente cancelou sua consulta), e tomando um amargo, como de costume. Convém iniciar minha explanação com este legado guarani: estes índios tomam a caá-i há séculos, seja pelo poder revitalizante da cafeína contida nela, seja para atenuar o gosto ruim de certas águas, seja para enfrentarem o frio do vento Minuano, ou mesmo para passar o tempo. Bebida que invariavelmente causa estranheza a quem toma contato com ela pela primeira vez, não é de se estranhar a contrariedade inicial dos Jesuítas para com ela. Mas os Inacianos não só perceberam os benefícios advindos da infusão como também enxergaram o grande valor comercial do produto. A venda de erva-mate era uma das principais fontes de renda das Reduções Jesuítico-guaranis, e o pessoal de Buenos Aires cevava seus mates com erva produzida pelos missioneiros. Mas o problema é que esta era uma atividade exclusivamente extrativista, pois se desconhecia o modo de produzir mudas da Ilex paraguaiense. E aí que entram os soldados de Santo Inácio, que além de versados em teologia, arquitetura, música, letras, história, metalurgia, eram mestres em botânica, sendo que desenvolveram um método eficiente para a produção de mudas, possibilitando a multiplicação dos ervais. Se o produto hoje é tão popular e acessível a todos, isto se deve muito ao trabalho da Companhia de Jesus.

E o vinho? Bem, o vinho tem milênios de história, mas foi durante a Idade Média que os mosteiros europeus aprimoraram o cultivo das uvas e a produção de seu tão precioso sumo, tanto por sua importância canônica, como para a subsistência dos monastérios, pois muitos sobreviviam da venda deste vinho. E foi num mosteiro na região de Champagne, na França, que aconteceu uma revolução na enologia. Reza a lenda que o monge beneditino Don Pérignon, que mesmo sendo cego era responsável pela produção dos vinhos, provocou uma segunda fermentação em algumas garrafas, que acabaram estourando. Ao provar o líquido resultante, ele teria dito “parece que estou bebendo estrelas”. Pena que o fato seja bem mais sem graça do que a versão. Na verdade, Don Pérignon era um grande enólogo, cujo conhecimento foi fundamental na criação desta bebida refrescante e saborosa que é o espumante.

E a cerveja? Bem, quem lê o ADHD Controlado já sabe como ela surgiu, mas bebida é do jeito que bebemos hoje por causa, novamente, dos mosteiros europeus (eram os MIT’s ou CALTECH’s da época), que adicionaram o lúpulo à receita. E o que é a cerveja hoje? Basicamente, um fermentado de malte temperado com lúpulo. Como os monastérios primavam pela auto-suficiência, a maioria deles produzia cerveja, o que foi fundamental para o desenvolvimento da bebida. Se hoje existem cervejas como a Paulaner, Augustiner e a Franziskaner, é porque paulinos, augustinianos e franciscanos produziam tão precioso líquido. Existem casos emblemáticos, como a criação de uma cerveja especial, com um teor alcoólico maior, para saciar os monges durante os longos períodos de jejum da Quaresma, cerveja que hoje é conhecida por Doppel Bock.

Mas não há como associar cerveja com monges sem falar dos Monges Cistercienses ou Trapistas. Expulsos da França por Napoleão, fundaram mosteiros na Bélgica e na Holanda. Como as terras da região não eram propícias à produção de uvas, os mosteiros começaram a fazer cerveja para vender. E que cerveja! Hoje as cervejas trapistas possuem elevada reputação para com os entendidos, com destaque especial para a quase inacessível (e impronunciável) Westvleteren. Para bebê-la, ou vá ao bar ao lado do mosteiro, ou compre no próprio, após uma romaria que merece um texto exclusivo. O Xavier Depuydt tinha algumas para vender em sua antiga loja na Rua Normandia, a módicos R$ 99,00 a garrafa de 300 ml, mas hoje “só tenho umas parrra mim”, diz o belga, com seu sotaque de Olivier Anquier.


Na próxima vez que forem tomar um vinho, uma cerveja ou um chimarrão, dêem graças a Deus.
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