ADHD Controlado

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Blocos de Carnaval da História de Cerro Largo.

Tenho uma incrível capacidade de guardar informações desnecessárias. Não sei o quão benéfico ou prejudicial é para mim este "dom",  pode ser que atrapalhe o armazenamento de dados realmente importantes ou, por que não, um sinal que o cérebro está trabalhando muito bem. Realmente eu não sei. Pode ser também que os meus critérios de importância não sejam os mesmos dos outros e fatos que para mim não têm grande relevância podem ser cruciais para alguns. Sendo assim, talvez fosse o caso de registrar parte deste meu "conhecimento" para evitar que se perca para sempre.

Começo com uma lista dos blocos que já participaram do carnaval na minha Cerro Largo. Se alguém não sabe, a tradição aqui é as pessoas se reunirem em grupos durante os dias da festa, os famosos blocos, não como aqueles do nordeste ou do Rio de Janeiro, mas sim adaptados aos costumes locais.

Um bloco precisa de seis coisas:
1- Integrantes, é óbvio: um grupo de pessoas em número razoável e com certa afinidade, seja por amizade, parentesco, trabalho ou até mesmo conveniência;
2- QG: o local onde o bloco se reúne durante o período de carnaval. Pode ser uma sala comercial alugada ou a casa de um dos integrantes;
3- Camiseta: é a identificação do bloco. Pode conter informações básicas como o nome, o símbolo (quando houver), a cidade, o ano, a idade do bloco e até dados dignos de estudos antropológicos, capazes de dissecar a personalidade dos integrantes ou a ideologia predominante nele. Alguns confeccionam fantasias mais elaboradas e até mesmo bandeiras;
4- Som: como é impossível dissociar festa de música, os blocos costumam contar com equipamentos de som potentes o suficiente para satisfazer seus integrantes e irritar os vizinhos. Em alguns casos, um carro bem equipado pode quebrar um galho;
5- Bebida: os blocos costumam disponibilizar uma quantidade farta de bebida para seus integrantes. Os excessos e suas consequências não são o objetivo deste relato;
6- Ônibus: como os blocos costumam participar de bailes em cidades diferente a cada noite, é necessário um meio de transporte.

Nas décadas de 60, havia vários bailes de carnaval aqui em Cerro Largo, sendo que em cada noite eles ocorriam em um dos clubes da cidade. Relatos que eu coletei afirmam que os primeiros blocos foram criados dentro dos clubes, havendo o bloco do Cruzeiro, do Caça e Pesca, do Cultural... Somente depois que eles se desvincularam das entidades.

Após esta breve porém necessária introdução, listo abaixo os blocos que fizeram parte do carnaval de Cerro Largo nos últimos 20 anos.

K'CETA: fundado em 1990, é o bloco de carnaval mais antigo em atividade em Cerro Largo. Seu nome, de acordo com o que os fundadores me contaram, é "a abreviação de duas coisas das quais os homens gostam muito" (nos seus primeiros anos, o bloco era formado apenas por homens). Por mais de 15 anos sua camiseta sempre foi branca. Além de ser o primeiro bloco da cidade a fazer camisetas também para a Oktoberfest-Missões, foi pioneiro na internet, sendo o primeiro a ter um site na internet, uma comunidade no Orkut e um grupo de discussão no Facebook. Seu símbolo é um "olho" inspirado na capa do primeiro álbum do Ultraje a Rigor.

100 Futuro: fundado um ou dois anos depois do K'CETA.  Ainda em atividade.

Tik Dur: criado um ou dois anos antes que o K'CETA, foi um bloco muito tradicional (também era exclusivamente masculino), mas começou a definhar até desaparecer depois de uns 15 anos de festa (ouvi um amigo dizer que "o Tik Dur broxou..."). Seu símbolo era inspirado no antigo logotipo da Adidas, aquele do trifólio, estilizado para lembrar uma genitália masculina com os testículos. Parece que tempos atrás houve uma tentativa de reerguê-lo (sildenafila?), mas até agora sem sucesso.

Independentes: seu primeiro carnaval foi em 1996. Apesar de ser um bloco com poucos integrantes, manteve-se forte por uns 6 ou 7 anos. No seu ano de despedida, trocou Cerro Largo por Florianópolis.

Whiskysitos: surgiu no começo deste século. Inovou com o uso de fantasias bastante elaboradas (no primeiro ano foram de Flintstones). Também investiam pesado na sonorização. Durou uns 5 anos.

Bandeloko: fundado por ex-integrantes do Whiskysitos. Até onde eu sei, ainda em atividade.

Elma Chops: surgiu no final da década passada. Ainda em atividade. Seu símbolo é baseado na marca de salgadinhos da PepsiCo.
 
Lombrera: um bloco de fãs do Rock n' Roll que não se conformavam em ter que escutar pagode, funk e outros estilos "menores" nos QG's. Seu símbolo era inspirado no palhaço da banda alemã Lacrimosa. Durou dois carnavais.

C Q Sab: durou uns 2 ou 3 anos, no final da década de 90.

Farra Mansa: não me recordo se este bloco chegou ao seu segundo carnaval. O QG era nos fundos de uma casa, na Daltro Filho. No começo deste século.

Bafo de Kisuco: formado basicamente por adultos, a maioria casais. Não sei se existe ainda, lembro-me dele em uns dois carnavais, uns anos atrás.

Ksarinas: bloco exclusivamente feminino, muito forte nos anos 90. Acho que desapareceu no começo do século.

Choppados: também de meados da década passada, seu primeiro QG foi no bairro Brasília. Durou uns 3 anos.

Metralhas: tenho quase certeza que existiu um bloco com esse nome, cujo QG era numa antiga casa ao lado da praça, onde agora funciona a Defensoria Pública.

Taz Loko: outro bloco de vida curta, apesar de chegar a reunir bastante gente. Não sei se chegou ao quarto ano, isso no final do século passado.

Tô rindo à toa: o único desta lista que vem do interior da cidade, mais precisamente da vila Tremônia. Participa de bailes fora do roteiro dos outros blocos da cidade e já tem uns 10 carnavais de vida. Seu QG é no clube da localidade.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Super Mundial de Clubes FIFA

Qual é a graça num jogo entre o Espérance, da Tunísia, e o Al-Sadd, do Catar?

Nenhuma. Quem se importa com eles além de alguns tunisianos e outros poucos catarenses? Mesmo se tratando de um jogo válido pelo Mundial de Clubes, duvido que desperte o interesse de muita gente, mesmo numa época do ano em que o noticiário esportivo anda às moscas. Nem o jogo do vencedor deste confronto contra o Barcelona deve empolgar muito. O que todos aguardam é o muito provável e praticamente inevitável jogo entre os campeões da Europa e da América do Sul.

Para a grande maioria é difícil ver grandiosidade num jogo entre um grande clube europeu e um desconhecido catarense, mesmo se tratando do campeão asiático, muito menos num jogo entre dois times desconhecidos. O formato atual perdeu o pragmatismo do (para muitos, saudoso) TOYOTÃO, pois é inegável que no futebol de hoje raramente uma equipe de fora do eixo Conmebol-UEFA poderia se destacar numa competição como esta, e todo o interesse fica voltado apenas para a grande final. Mas essa gente da Ásia, da África, da Oceania e das Américas não-do-Sul toma refrigerante, compra carro, mora no mesmo mundo que nós e inclusive suas respectivas federações de futebol votam para eleger o presidente da FIFA. É justo que tenham o direito de participar de uma competição que decide quem é o melhor do planeta. Mas acontece que este fato não impede que se discuta como é que deve ser esta participação. Por que não agregar valor à competição (para usar uma expressão bastante em voga), fazendo um torneio maior, com mais times que não apenas os campeões continentais? Os representantes da Conmebol, da Oceania e da Ásia que agora estão no Japão disputaram seus torneios continentais sem terem sido campeões de seus países. Se o vice-campeão brasileiro pode ser campeão da Libertadores, por que o vice da Libertadores não pode ser campeão mundial?

Façamos um exercício de imaginação: um Mundial de Clubes com 16 participantes, divididos em quatro grupos. A Conmebol indicaria os quatro primeiros colocados da Libertadores, assim como a UEFA faria com a UCL, e as demais federações seus campeões e vices. Com base nos resultados deste ano, o torneio teria os seguintes participantes

Conmebol
Santos
Peñarol
Vélez Sarsfield
Cerro Porteño

UEFA
Barcelona
Manchester United
Real Madrid
Schalke 04

Concacaf
Monterrey
Real Salt Lake

CAF
Espérance
Wydad Casablanca

AFC
Al-Sadd
Jeonbuk Hyundai Motors

OFC
Auckland City
Amical


Dividindo as equipes em quatro grupos e tendo os campeões e vice da UEFA e da Conmebol como cabeças de chave, poderia-se ter o seguinte panorama:

Grupo A                  Grupo B                        Grupo C                   Grupo D
Santos                      Barcelona                       Peñarol                      Manchester United
Schalke 04              Cerro Porteño                 Real Madrid              Vélez Sarsfield
Wydad                     Jeonbuk                         Monterrey                 Auckland City
Amical                      Real Salt Lake               Al-Sadd                     Espérance

E agora vem o "pulo do gato": ao invés de realizar os jogos em um único país sede, os confronto entre as equipes do mesmo grupo seriam em seus respectivos estádios, ida e volta: o Santos jogaria em Gelsenkirchen, no Marrocos e em Vanuatu e receberia seus três adversários na Vila; o Barcelona jogaria na Olla; Real Madrid e Peñarol duelariam no Santiago Bernabéu e no Centenário, mas também jogariam no México e no Catar; a imprensa esportiva inglesa, argentina e tunisiana voltaria sua atenção para a Nova Zelândia. Os dois melhores de cada grupo se classificariam para disputar as quartas-de-final, em jogos de mata-mata, de onde sairiam quatro semifinalistas e por fim as grandes finais, em dois jogos, sendo que aquele com melhor desempenho decidiria em casa.

Teríamos um torneio de clubes realmente mundial. Havendo mais jogos entre grandes clubes aumentariam as atenções voltadas à competição e com o passar do tempo até poderiam surgir algumas rivalidades transcontinentais. E os pequenos? Talvez o sonho de ser campeão do mundo se torne até mais difícil, mas ganhariam uma visibilidade que nunca tiveram até então. Atualmente, qualquer congolês com um pouco de talento já é levado, com 12 anos, para a terceira divisão francesa. Com a perspectiva de visibilidade e valorização, os times dos demais continentes não precisariam aceitar qualquer proposta que chegasse do Dynamo Vladivostok querendo levar suas promessas. O mundo passaria a dar mais atenção ao futebol praticado "na periferia".

Com um número maior de participantes aumentaria muito o interesse pelo torneio. Se formos analisar os times que teriam participado da competição desde 2005, quando o atual formato foi implementado, mas sob os critérios hipotéticos aqui sugeridos, já teriam acontecidos jogos do Mundial de Clubes nos seguintes países: Egito, Tunísia, Camarões, Congo, Nigéria, Marrocos, Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Uruguai, México, Costa Rica, Estados Unidos, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Síria, Irã, Coréia do Sul, Austrália, Catar, Polinésia Francesa, Ilhas Fiji, Ilhas Salomão, Nova Zelândia, Papua Nova Guiné, Vanuatu, Inglaterra, Holanda, Itália, Espanha, Alemanha e França. As últimas fronteiras do futebol seriam definitivamente desbravadas.

Claro que há muito de utopia nesta ideia, inclusive vejo até alguns pequenos empecilhos que dificultariam sua implementação, especialmente em relação aos longos deslocamentos e as datas para os jogos. Nos resta apenas torcer para o rápido desenvolvimento da aviação supersônica comercial ou talvez para que os cientistas descubram alguma maneira para diminuir a velocidade do movimento de translação da Terra.

Quem sabe um dia...


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O ponto mais alto de Cerro Largo

Aprendemos de pequeno que a nossa Cerro Largo fica num buraco, o que é uma grande maledicência apesar da comprovada irregularidade do relevo. Não sei se podemos definir  como "vale" o local onde o centro da cidade foi instalado, mas é fato que ao redor deste o terreno se eleva nas várias direções: ao leste o declive primeiro aumenta devido aos cursos dos arroios Clarimundo e Encantado, mas logo eleva-se sutilmente na região do Bairro Brasília; ao norte tem-se os morros Santa Maria, "dos Perim" e da Clínica (de onde eu tirei a foto abaixo, em 2005), que separam a cidade da BR 392, depois da qual a subida continua com os morros da Atolosa, da Marreca e da Reserva, para daí descer até o rio Comandaí; a oeste temos as elevações onde está sendo construída a sede da UFFS e os bairros Santo Antônio e São Fernando; e ao sul o Morro do Convento, de onde o terreno desce até o leito do rio Ijuí.

Agora, dentre todos estes morros, qual seria o mais alto?
Pouca gente sabe, mas o ponto mais elevado de Cerro Largo fica entre as Linhas Reserva e São João Norte. O local, que fica em uma propriedade rural, está demarcado com um monolito que foi ali colocado em dezembro de 1950, provavelmente pelo exército.
 (Eu em 2005, com mais cabelos e jovialidade).


segunda-feira, 28 de novembro de 2011

28 de novembro

Quase passou despercebido, mas o dia de hoje representa muito para o meu, digamos, "Gremismo". Dois dos momentos mais marcantes da minha vida de torcedor aconteceram justamente neste dia, com apenas um ano de diferença entre eles.
Em 1995 houve a final do Mundial, contra o Ajax. Eu tenho um aperto no peito só de lembrar daquela manhã, a última em que passei no nosso apartamento em Horizontina antes de ir para meu intercâmbio na Alemanha: que judiaria, que injustiça. O Grêmio foi forte, valente, mas... 
Foi uma das poucas vezes que o futebol me fez chorar. Perdemos, mas saímos de cabeça erguida.

Um ano depois eu estava em Porto Alegre, havia começado o meu cursinho pré-vestibular no Mauá há poucos dias e o Grêmio disputaria a segunda partida das quartas-de-final do Brasileirão de 96 contra o Palmeiras, naquele que foi o maior clássico brasileiro da década de 90. Pela primeira vez na minha vida tive a oportunidade de assistir um jogo ao vivo no Olímpico. Até hoje fico arrepiado ao lembrar-me da emoção que senti ao ver a luz dos refletores ainda dentro do T2 lotado.
O jogo foi a cara do Grêmio do Felipão: começamos perdendo mas viramos na segunda etapa (os jogadores devem ter ouvido poucas e boas no vestiário), com gols de cabeça. Que festa! Que alegria! Inesquecível.



A lembrança ficou a cargo do site Grêmio Hoje. Muito obrigado.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

No egoísmo selvagem

Uma pessoa que é capaz de abrir mão de tudo o que tem para ir em busca de um sonho e para quem o mais importante é a sua liberdade. 

Àqueles que estão cheios de trabalhos para fazer e responsabilidades para administrar, é provável que isso desperte uma certa inveja. Afinal, quem não gostaria de ser livre para fazer o que quiser, independente da opinião dos outros?

Isso foi o que almejou Christopher McCandless, cuja história inspirou o livro e depois o filme Na Natureza Selvagem (ou no original, Into the Wild). Apesar de ler e ouvir muitos elogios a respeito da história, demorei para ver o filme, embora tenha quase comprado o livro no século passado, quando o tive em minhas mãos à sombra dos jacarandás da Praça da Alfândega. Acabei devolvendo-o ao livreiro, o que se mostrou ser uma sábia decisão: a minha imaturidade de então certamente faria com que eu formasse uma opinião equivocada a respeito do protagonista e não percebesse nele a figura incoerente, egoísta e incapaz de amar que ele realmente foi.

Chris, apesar de criticar com veemência a sociedade, o dinheiro, a carreira profissional, o apego aos bens materiais, não se furtou em se valer de frutos desta mesma sociedade para se manter: afinal, se a humanidade fosse formada por indivíduos misantropos como ele nunca conseguiria atingir os avanços tecnológicos e o conhecimento que temos hoje em dia r que nos permite constuir carros, trens, armas de fogo, lunetas, facas, imprimir livros e confeccionar roupas para suportar o frio. Por trás de um saco de arroz há milênios de evolução da agricultura, irrigação, agronomia, geologia, química e até metalurgia. Foi a sociedade desprezada por ele que lhe possibilitou matar a fome com arroz cozido após suas infrutíferas caçadas. Um mundo sem relações comerciais, sem empresas, sem pessoas dedicadas ao trabalho, sem responsabilidades conseguiria construir um ônibus como aquele em que ele se protegia do frio? (Aliás, um belo International Harvester K-5 de 1946, segundo o IMCDb, de onde eu "roubei" a foto abaixo). Por que ele não cavou um buraco na terra, usando somente às mãos, é claro? Por que não construiu uma casa com pedras?


Numa tentativa de justificar a revolta do rapaz, em certo momento o filme começa a retratar antigos conflitos familiares, a péssima relação entre seus pais, a vida de aparências, a relação fria entre pais e filhos, motivos que teriam sido determinantes na formação da personalidade do protagonista. O que ele faz? Tenta reconciliar seus pais, mostrar-lhes que estão errados? Não, ele era egoísta de mais. Pouco importava a situação de seus pais, o que eles pensavam, como estavam e o quanto eles sofreriam com sua partida e com a impossibilidade de restabelecer contato. Apenas a satisfação pessoal lhe interessava. Como se ele não tivesse nada a ver com tudo o que seus pais estavam passando, que tudo aquilo não era seu problema também. Muito melhor e mais fáciel é sair andando sem rumo pelo país.

Mas o grande problema do nosso "herói" era outro. Chris mostrou-se uma pessoa incapaz de amar: nem seus pais, nem a hiponga que queria transar com ele, nem ninguém durante toda a história. Àqueles que poderiam ser-lhe úteis para atingir o seu intento, Chris dispensava certa cordialidade, mas nunca amor. Com isso, conseguia angariar alguma simpatia por onde passava, o que facilitava sua tarefa de viver às custas dos outros. Mas para quem não lhe era útil restava apenas e seu desprezo. Dado momento ele vê um sorridente jovem de terno em uma lanchonete e sobre este rosto projeta o seu, como se esse fosse o futuro que lhe estaria reservado caso continuasse seus estudos ou começasse sua carreira profissional. Na sua mente egoísta viu um escravo do "sistema", um alienado, indiferente à miséria que existia naquelas ruas e que aliás devia até ser um dos responsáveis por tudo aquilo. Pouco importava se na verdade tratava-se de um jovem dedicado, estudioso, querido por todos, que visitava com frequência seus pais ou seus avós, talvez até um responsável pai de família. Se ele estava feliz e bem vestido, é porque era cúmplice de todo o mal do mundo.

Por fim, Chris consegue seguir o seu caminho e chegar ao seu destino. Não quero entrar no mérito do quanto deve ser divertido morrer de fome, frio e dor de barriga num lugar lindo como o Alasca. Para mim, "Alex Supertramp" foi um baita idiota.

sábado, 29 de outubro de 2011

O que eu vou dizer para os meus filhos?

A cena se repetiu inúmeras vezes: ao final do dia, um grupo de jovens vestidos de branco trocava o prédio da faculdade por um apartamento nas proximidades, a clínica pelo Play Station, o famoso "motorzinho" pelos joysticks, o flúor pela cerveja, a busca por um sorriso perfeito pelo Winning Eleven.

Como éramos felizes! 

Uma vez por semana, as emocionantes disputas virtuais davam lugar a jogos de verdade. O campeonato estava chegando ao seu final e o nosso time vinha crescendo, com destaque para um jovem franzino e com os dentes completamente desalinhados, que raramente ficava um jogo sem deixar o seu. O cara era um monstro, fazia milagres com a bola nos pés e enchia toda a torcida de orgulho. Recordo-me bem de uma noite, quando extasiado tanto pelo golaço que o craque marcara quanto pela cerveja que bebera, levantei-me do sofá e exclamei:

- Vou poder dizer para os meus filhos que vi esse cara jogar!


Muito tempo se passou desde aquela noite e nem tudo foram sorrisos bonitos nestes onze anos. O jovem craque deixou seu clube de um modo bastante tumultuado e que ainda hoje suscita dúvidas. Mas uma coisa é certa: ele e quem o assessorava em todo o momento tiveram ciência de tudo e foram cruciais para este desfecho. Pouco importa se o que foi feito estava dentro da lei e da legitimidade. O jogador traiu a confiança da torcida, e aqui no interior a gente aprende que confiança é algo difícil de se conquistar mas muito fácil de se perder. Ele foi embora e de um modo que não deixou saudades. 

Por isso o meu espanto ao ver sua imagem junto à de outras revelações das categorias de base do clube durante a Convenção Consular de 2009, numa apresentação do projeto para o CT que está sendo construído. Não via seu rosto no estádio desde a final do estadual, nove anos atrás, e não podia acreditar que aquele semblante estava ali novamente. Na hora me dei por conta de que a direção do clube estava tentando se reaproximar de quem se afastara por vontade própria, fato que confirmei pela presença do irmão dele num jogo festivo. Para o meu alívio, a grande e barulhenta maioria da torcida também não queria que ele estivesse lá.

Mas o pior estava por vir: o clube admitiu tratativas para trazê-lo de volta. Mas como assim? E o passado do cara, não dizia nada? Como confiar em alguém como ele? E nem levava em conta o fato dele estar em fim de carreira, sem demonstrar um futebol convincente há muitas temporadas. Era uma questão de orgulho, de não abrir as portas a quem nos desprezou. Manifestei minha contrariedade, assim como muitos o fizeram. Mas para meu espanto, muitos queriam que ele voltasse...

Pois é... como confiar em alguém como ele? Tem um ditado (chinês, creio eu) que diz "se te enganam uma vez, a culpa é de quem te enganou; se te enganam pela segunda vez, a culpa é tua". Todos conheciam com quem estavam lidando. O resultado não me espantou nem um pouco. E fico feliz por isso.

Nesse seu "quase retorno" falou-se até na palavra perdão. Sentimento muito nobre, eu sei, mas mesmo Aquele que disse que devemos perdoar a quem nos tem ofendido nunca dissociou o perdão do arrependimento. E em nenhum momento esse jogador demonstrou estar arrependido pelo o que fez conosco.

Honestidade, caráter, sinceridade, lealdade, respeito... aprendi tudo isso com o meu pai e pretendo ensinar aos filhos que ainda não vieram. E se não posso mais me orgulhar da passagem desta pessoa pelo nosso time, ao menos ele servirá de exemplo de conduta que não quero que meus filhos tenham.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Ponto Final.

Ele pegou o livro, num misto de desconfiança e contragosto. Folheou-o rápida e aleatoriamente, parando na página 29, início do capítulo referente aos índios, tema que lhe é caro. Fixou-se nesta página e começou a lê-la. Caso tenha feito desde o primeiro parágrafo, o texto é este abaixo:

"Em 1646, os jesuítas que tentavam evangelizar os índios no Rio de Janeiro tinham um problema. As aldeias onde moravam com os nativos ficavam perto de engenhos que produziam vinhos e aguardente. Bêbados, os índios tiravam o sono dos padres. Numa carta de 25 de julho daquele ano, Francisco Carneiro, o reitor do colégio jesuíta, reclamou que o álcool provocava "ofensas a Deus, adultérios, doenças, brigas, ferimentos, mortes" e ainda fazia o pessoal faltar às missas. Para acabar com a indisciplina, os missionários decidiram mudar três aldeias para um lugar mais longe, de modo que não ficasse tão fácil passar ali no engenho e tomar umas. Não deu certo. Foi só os índios e os colonos ficarem sabendo da decisão para se revoltarem juntos. Botaram fogo nas choupanas dos padres, que imediatamente desistiram da mudança."

Mesmo percebendo sua aparente reprovação, resolvi provocar:

- Leve-o com o senhor, umas 3 ou 4 noites de pouco sono são suficientes para o ler.
- Não, obrigado - respondeu com a calma que lhe é peculiar - o que eu li já me basta para saber que isso não pode ser levado a sério.

A desaprovação do meu paciente somente reflete parte do sentimento causado pelo livro Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, de Leandro Narloch. Afinal, a publicação trás algumas "verdades inconvenientes" sobre fatos e personagens da história do nosso país. Muitas pessoas não gostaram nem um pouco de saber (ou do fato de muitos finalmente descobrirem) que os índios brasileiros não eram assim tão cuidadosos com a natureza, que o líder negro Zumbi tinha escravos, que o Paraguai era um país muito pobre já antes da guerra, que os movimentos armados que lutaram contra o governo militar no Brasil não queriam a democracia mas sim uma ditadura ao gosto deles... enfim, coisas até bastante óbvias mas que sempre passaram batido nas aulas de história devida à elevada carga ideológica à qual os alunos são submetidos.

Apesar de fartamente embassado em referência documentadas, o autor deixa bem claro o intuito provocativo e até um pouco exagerado do livro, o que de maneira alguma arrefeceu os nervos de quem se ofendeu com o que leu.

Mas se por um lado o livro causou alvoroço e indignação, especialmente na patrulha ideológica, por outro lado ele mostrou que existe uma grande parcela da população sedenta por um posicionamento contrário, com uma visão distinta do coitadismo que coloca nos outros a culpa por todas as nossas mazelas.

Ps. terminei de ler este livro em outubro do ano passado e somente relatei aqui após ficar sabendo do lançamento de sua continuação, o Guia Politicamente Incorreto da América Latina.  Esta minha morosidade até que ajuda na minha tentativa de me livrar da imagem de "leitor voraz", de um "devorador de livros", imagem esta que por muito tempo eu mesmo alimentei. Sou uma pessoa normal, tá gente!, até meio preguiçoso com minhas leituras. Que fique bem claro.
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