quarta-feira, 10 de setembro de 2008

On the road

(Fechando a trilogia dos blogueiros da FAECV, iniciada aqui e continuada acá.)

Uma das maiores preciosidades na biblioteca da minha casa é uma coleção com inúmeros exemplares da revista Quatro Rodas, especialmente do final da década de 70 até meados da década de 80.

Cresci folhando, olhando e lendo estas revistas. Com elas tinha acesso aos novos lançamentos, como o campeoníssimo de vendas Gol (ainda hoje me lembro da capa, onde um indefectível Gol vermelho, “motor de geladeira”, andava numa praia, abaixo do título “Este é o Gol”), o hoje raro Fiat Oggi e a Chevrolet Marajó, igual a que o pai tem na garagem desde maio de 1981; assim como ficava sabendo de antemão quais seriam as novidades que viriam, como o Monza e Santana 2000, ou aquelas que provavelmente nunca virão, como a Brasília II e o Ford Sierra brasileiro. Também gostava dos testes comparativos: Corcel II x Passat X Dodge Polara, Chevette x Fiat 147...

Adorava acompanhar meu pai em ambientes automobilísticos, como oficinas e postos de gasolina: o cheiro de óleo, a sujeira, os motores (os pôsteres também, é claro), tudo me fascinava.

Comprei meu primeiro carro em 2002, um negócio de pai para filho, literalmente. Mas foi mais por uma hipótese profissional que acabou frustrada do que por uma necessidade. E é o mesmo carro que tenho até hoje. Acho que sou a única pessoa do meu círculo de amizades que tem um automóvel do século passado. Nada contra o meu carro, ele nunca me deixou na mão, mas penso que gosto mais de andar de carro do que do carro em sim.

Pegar a estrada é uma afirmação da liberdade, da individualidade, da onipotência, do vigor. Não é de se estranhar a tamanha identificação dos homens com o automóvel.



Como moro numa cidade pequena, dificilmente utilizo meu carro no dia-a-dia. Chego a deixá-lo a semana inteira na garagem. Gosto de utilizá-lo como uma válvula de escape, um divertimento, um prazer. Quando estou estressado, vou para a estrada: vejo o mundo passar ao meu redor, o passado pelo retrovisor, e vou seguindo o meu caminho, mesmo sem ter certeza do destino. Eu e meu carro, meu micro-cosmo particular, onde posso escutar a música que eu quero, com a pessoa que eu quero, parar quando oportuno, necessário ou mesmo desejado, regressar, prosseguir, acelerar, diminuir o ritmo. O carro é uma metáfora da vida que poderíamos e gostaríamos de ter se tantas liberdades não nos tivessem sido cerceadas.
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