quarta-feira, 14 de maio de 2008

Madhukar e a diplomacia

Tempos atrás li uma entrevista com João Havelange, o ex-presidente da FIFA que transformou o futebol neste esporte multi-bilionário, sucesso em praticamente todo o mundo.
Havelange era um esportista. Aliás, ainda é, pois mantém uma rotina de nado que deixaria com inveja muito professor de academia. E participou de duas Olimpíadas, sendo que a primeira delas foi a de 1936, em Berlim, quando a Alemanha era governada por ninguém menos do que Adolf Hitler.
Na entrevista que eu li, quando perguntado sobre como os atletas acompanharam todo o aspecto ideológico presente naqueles jogos, o brasileiro tranqüilamente poderia ter criticado o país sede, seu povo. Não seria questionando por ninguém, talvez até aplaudido.
Mas não. Ele apenas respondeu: “Indiscutivelmente, os Jogos Olímpicos de Berlim foram marcados por uma organização excelente e instalações perfeitas”.
Se alguém procurava algum exemplo de diplomacia, acabou de encontrar. Não é à toa que hoje a FIFA tem um maior número associações filiadas do que ONU tem de nações. Se o futebol é este sucesso incontestável (no aspecto comercial, para que fique bem claro), isso tudo se deve a João Havelange e seu talento. Inclusive em relação à diplomacia.
Num tempo em que a informação corre o mundo numa velocidade nunca antes pensada, fazendo com que todo o mundo queira ter sua opinião a respeito de tudo, quanta falta nos faz a diplomacia! Tantos problemas ou situações desagradáveis seriam evitados se usássemos um pouco desta "ciência", como fazia o meu amigo Madhukar.
Madhukar Shyam (foto) é um rotariano da Índia, e esteve visitando o nosso país em 2006, no papel de líder de um IGE (Intercâmbio de Grupo de Estudos), junto de mais três conterrâneos. Sempre simpático e solícito, ele manteve a sobriedade e apelou para a diplomacia sempre que as perguntas destinadas a ele cruzavam a linha que separa a curiosidade da deselegância. Tudo bem que algumas pessoas encontrem incoerências no fato do país de Gandhi possuir armas nucleares, mas a impressão que um questionamento desses pode causar não deixa de ser devastadora.
Sorte que do outro lado estava Madhukar. Calma e pacientemente nos explicou (inúmeras vezes) que a tecnologia nuclear indiana tem como objetivo fornecer a energia elétrica tão importante para este país que não para de crescer e, em caso de necessidade ou quando a soberania do país estiver ameaçada, possibilitar a construção de armamentos atômicos.
Pode não ser verdade. Eu, sinceramente, não acredito. Mas talvez os brasileiros pensassem diferente se, ao invés de Bolívia e Suriname, tivéssemos Paquistão ou China como vizinhos.
Os indianos estavam aqui tão somente para conhecer o nosso país e para deixar uma boa impressão do seu, e parece que conseguiram (por mais difícil que seja este segundo). Madhukar foi um diplomata. Por isso que foi escolhido para liderar o grupo.

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Hoje, tive medo de passara novamente por uma situação desconfortável como esta. Ciceroniano um grupo de alemães, também do IGE, temi que alguém fizesse alguma alusão ao nazismo, do tipo: “como vocês foram cair nessa, pô?”, ou “o que vocês têm contra os judeus?”. Mas não, tirando uma pergunta sobre o espírito belicoso dos alemães, que eu consegui atenuar na tradução, nada desagradável.
Ainda bem. Melhor do que agir com diplomacia é não precisar dela.
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