sexta-feira, 6 de junho de 2008

Cesta

Um dia alguém disse que jogar basquete era legal. Era início da década de noventa, e os meus conterrâneos de Cerro Largo viraram, do dia para a noite, fãs da bola ao cesto. Inclusive este que cá escreve. Alguém deve ter trazido esta novidade de Porto Alegre, ou de Santa Maria. Os cerrolarguenses sempre gostaram de seguir os costumes dos "grandes centros", como foi o caso dos bermudões grunge.

Jogávamos basquete no intervalo do colégio, à tarde, nos finais de semana. Todos jogavam basquete. Se havia uma grupo maior, formávamos dois times. Entre poucos, jogávamos o popular 21, utilizando apenas uma tabela, onde duas duplas se enfrentavam. Sempre que alguém alcançava uma pontuação par, tinha direito a um arremesso. Com 21 pontos, a partida terminava.

Eu, devido ao meu peso elevado e estatura diminuta, não era um grande jogador. Faltava-me impulsão e fôlego. Mas sobrava-me vontade, tanto que fiz uma tabela de basquete, com tábuas de madeira e arame, para treinar arremesso em casa. E eu treinava.... passava tardes arremessando. A mãe devia ter um pavor daquela bola batendo contra a grade da sacada, todos os dias, inúmeras vezes. Mas ela e o pai foram compreensíveis, tanto que me deram de presente uma tabela de basquete.

Infelizmente não tive oportunidade de utilizar meu brinquedo novo, pois meu pai foi transferido para Horizontina.

Sem amigos, sem conhecidos, e sem lugar para colocar minha tabela nova, pois fomos morar num prédio de apartamentos. Mas meu gosto pelo esporte não esmoreceu. Tanto que insistia com o professor de educação física (não lembro seu nome, mas o apelido era Shazam), para jogarmos basquete algumas vezes, ao invés de sempre futebol.

Acho que eu era muito chato, pois durante o ano letivo de 1993 consegui que minha turma jogasse basquete em três oportunidades. Um marco, pois ninguém, ninguém mesmo entre os 17.000 habitante de Horizontina jogava basquete. Logo em Horizontina, uma cidade tão cosmopolita e com tanta possibilidade de contato com os Estados Unidos, não havia fãs do basquete.

Mas eu tenho um teoria: Horizontina sempre teve uma divisão social muito mais forte do que Cerro Largo. Certamente havia pessoas passíveis de influência americana, mas era uma elite mais fechada. Tais modismos acabavam não popularizando. E como eu não freqüentava os mesmos círculos de amizade....

Lá eu era mais um chinelo...

Mas voltando ao assunto, eu era tão chato, mas tão chato e insistente que o professor me apelidou de bASqueteiro. E era tão gritante a diferença técnica entre eu, que já jogara, e meus colegas que eu sempre era o melhor. Tanto que numa oportunidade fizeram um jogo gurias + eu contra os outros guris, e ganhamos.

Mas isso foi no Colégio Cristo Rei. Nos dois anos seguintes, quando estudei no Comercial, o colégio nem tinha tabelas de basquete. O negócio deles era vôlei. Até o futsal ficava em segundo plano. Eu até fui conversar com o diretor, o Sedelmo, cogitando a possibilidade de se instalar as tais tabelas, mas o assunto ficou de ser estudado. Minha conversar fora em vão...

Em resumo: nos três anos em que morei em Horizontina, pude jogar basquete apenas três vezes...

Mas depois deste hiato, minha família voltou a Cerro Largo. Eram outros tempos, e o futebol voltou a ser o esporte praticado pela maioria, onde incluia-me. Não que o basquete tivesse sido abandonado, ele ainda era praticado, mas não de modo tão intenso. Mas ainda tinha sua importância, tanto que até houve um torneio de arremessos num daqueles dias em que os professores faziam suas reuniões (os famosos Conselhos de Classe), e os alunos passavam o tempo nas Inter-séries. E eu participei deste torneio. E mesmo ficando praticamente 3 anos sem jogar basquete, conquistei o terceiro lugar.

É por isso que eu fico indignado com os jogadores de futebol que erram um passe ou um cruzamento: puxa vida, os cara não fazem outra coisa na vida, como é que ele ainda erram o básico? Como é que esse loucos não treinam? Se eu, que era um zero a esquerda no basquete, depois de treinar tanto, dificilmente errava um arremesso, como que eles não se prestam pra isso? Eu me revolto...

Bem, pra não mentir, eu até joguei mais vezes basquete quando morei em Horizontina, mas não em quadras, mas sim no computador: passei horas diante do Lakers vs. Celtics, simulador de jogos da NBA. Meu time sempre era o Phoenix Suns, do Charles Barkley. Eu só não sabia porque esse tal de Boston Celtics aparecia no nome do jogo se o grande time então era o Chicago Bulls, do Michael Jordan.

Somente muito tempo depois (salve a internet), descobri que tanto o Los Angeles Lakers quando o Boston Celtics são os maiores vencedores da NBA, só que como o segundo andava meio em baixa, este duelo estava perdendo o vigor.

Mas isto até este ano. Após mais de 20 anos, Lakers e Celtics voltam a disputar a final da NBA. Tão logo fiquei sabendo disto, lembrei-me do meu velho jogo de computador, companheiro de longas tardes. É claro que não vou assistir aos play-offs, como fiz em 93, quando meu Phoenix perdeu para o Bulls. Mas minha torcida fica para o Celtics.

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