quinta-feira, 12 de junho de 2008

Sobriedade

Dias atrás, um amigo me questionou se eu não temia que o meu interesse por cervejas artesanais pudesse prejudicar a boa imagem que tenho perante a população da minha cidade, abrindo brecha para uma equivocada associação entre produção e consumo desmedido.

Confesso que a pergunta trouxe-me incertezas: afinal, sobriedade e uma boa imagem perante o público são requisitos básicos para a prática da odontologia, e mesmo que a primeira permaneça impecável, a segunda pode ficar bastante abalada em decorrência de calúnias, difamações e maledicências provenientes da inveja alheia.

Lutei muito para conquistar meu espaço no mercado de trabalho, e se hoje colho os frutos do meu esforço e da minha dedicação, não posso deixar que comentários mal intencionados venham a prejudicar o meu sucesso profissional.

Mas vamos deixar as coisas bem claras: a minha intenção de fazer cerveja não se justifica pela vontade de beber mais, mas sim por hobby e para ter acesso a produtos de qualidade que somente estão disponíveis nos grandes centros.

Eu poderia argumentar fazendo um paralelo com os produtores de vinho: há muitas pessoas que fazem vinho, tanto para comercialização quanto para consumo próprio, inclusive aqui na minha região, onde se busca a matéria-prima, no caso, as uvas, da serra gaúcha. E desses tantos produtores de vinho, sei de muito poucos que são dependentes da bebidas ou que cujo consumo atrapalha seus afazeres do dia-a-dia. Mas acho que este argumento não teria muito impacto, porque se por um lado a fabricação de vinho é tratada como mais uma rotina ou alternativa para os pequenos produtores rurais, a cultura da fabricação artesanal de cerveja foi totalmente esquecida.

Então posso usar o argumento de que o consumo de uma cerveja de qualidade tem todo um rito que o difere do simples hábito de beber cerveja. É mais uma degustação, uma busca por prazeres e sensações ao mesmo tempo fugazes mas também duradouras. Se por um lado um simples bebedor de cerveja escolhe logo a mais gelada e começa a beber, o apreciador de uma boa cerveja leva em consideração uma série de outros fatores, como qual o tipo mais apropriado para aquela ocasião, o copo mais adequado para uma melhor apreciação da bebida, a temperatura ideal para o consumo, o barulho ao abrir a garrafa, o aroma expelido por ela, a cor da bebida, sua translucidez, seu aroma no copo, as bolhas que se formam, a cor e a quantidade de espuma (nesse momento, um simples bebedor já terá terminado a sua garrafa), para então recém levar a bebida à boca, onde irá percorrer as papilas gustativas, na busca dos mais variados sabores, para então somente degluti-la, afim de sentir o after-taste e lembrar-se de toda a sensação vivenciada (enquanto que o bebedor estará terminando sua segunda garrafa).

Beber uma cerveja de qualidade como se toma uma ceva num boteco é uma indecência. No mínimo, é jogar fora uma quantidade considerável de dinheiro.

Mas, infelizmente, a grande maioria das pessoas não tem esse conhecimento, o que torna inócua esta minha explicação. E é a este grupo que direciono meus próximos argumentos:

Há sete anos que a população de Cerro Largo conhece e reconhece a qualidade e a seriedade do meu trabalho, tanto no âmbito profissional quanto no âmbito comunitário. Não será o fato de eu beber uma cerveja que eu mesmo tenha fabricado que diminuirá a minha dedicação à atividade profissional. Tenho a seriedade, o profissionalismo, o discernimento e o bom senso para tanto.

A maledicência que poderá surgir não me preocupa. Meu advogado é o meu trabalho. As testemunhas, os meus pacientes.

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