segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Oktoberfest

Há muitos nordestinos morando na região norte do Brasil: Amazonas, Pará... Por razões econômicas, muitas levas de migrantes adentraram na Floresta Amazônica em busca de uma vida melhor, seja no ciclo da Borracha, seja na época do garimpo, ou por causa da Zona Franca.

E são muitos. Os mais maldosos dizem que no norte tem índio e nordestino. Maledicência...

Mas é normal que um grupo populacional deslocado de sua origem busque preservar sua identidade. E foi o que fizeram os nordestinos do Pará: para manterem viva a lembrança do sertão, eles fundaram um CTG, onde dançam a chula, o pezinho e o vanerão. O CTG de Parauepebas é o ponto de encontro dos nordestinos que moram no Pará, onde eles podem matar a saudade de casa e lembrar dos tempos passados....



Você deve estar achando ridícula e idiota essa história, mas ela existe, somente os nomes dos personagens foram alterados. Mas eu vou revelá-la, mesmo que isso possa custar-me o ostracismo.

Na quinta-feira que vem começa na minha cidade a Oktoberfest-Missões. E não somos os únicos: Igrejinha, Santa Cruz, Santa Rosa e Blumenau, entre outras, também têm seus festejos de outubro, baseados no evento que ocorre anualmente em München, desde 1810.

Existe incongruência nisto? Bem é uma festa alemã, não é?

Não!!!

A Oktoberfest não é uma festa alemã. E quem me disse isso não foi a Wikipedia ou o Google. Quem me disse isso foi o Herr Krause, líder dos intercambistas alemães que visitaram nossa região em maio corrente. Quando mostramos-lhes o nosso parque de exposições, onde é realizada a nossa Oktoberfest, ele não escondeu sua perplexidade. A razão: Oktoberfest é tradição bávara e não alemã.

Mas os bávaros (ou bayern, no original), não são alemães???

São, são mesmo, assim como os gaúchos e os nordestinos são brasileiros.

É muito complicado tentar explicar as diferenças culturais entre os povos que formaram a atual Alemanha, mas posso adiantar que os do sul (bávaros) não gostam nem um pouco dos do norte (prussianos). E vice-e-versa. E razões não faltam: sul católico x norte protestante, sul unido e forte x norte desunido e forte, norte lutando contra Napoleão x sul construindo Neuschwanstein...

Em suma: os do norte não gostam dos do sul. E o contrário também é válido. Como diria a intercambista Janina Hinck “das ist nicht deutsch, das ist bayern” (isto não é alemão, isto é bávaro).

E a Oktoberfest? Bem, é uma festa que surgiu para comemorar o casamento de um príncipe da Baviera, e que hoje ocorre em diversas cidades do sul do Brasil. Há incoerência nisto?

Há! Claro que há!

A Unificação Alemã ocorreu, oficialmente, em 1871. Antes disto não havia uma identidade alemã, diversos reinos, ducados, cidades, principados, cada um com sua identidade e autonomia, formavam os então conhecidos Estados Alemãs. E foi nessa época que muitos buscaram novos horizontes em um continente distante. E partiram, da Saxônia, de Württenberg, de Hessen... houve migrantes da Baviera rumando para a América do Sul? Óbvio que houve, mas foi uma minoria insignificante...

Os alemães, ou seus descendentes, que hoje habitam o sul do Brasil, têm todo o direito de relembrar suas tradições de além-mar. Mas cultuar algo que lhes é estranho??? A Oktoberfest não é alemã, assim como o CTG não é nordestino. Há uma forte incoerência nisto, e a verdade não pode silenciar.

Sei que este blog tem só 4 leitores, e que todos moram em Porto Alegre, ou seja, não haveria tempo hábil para cancelar a festa na minha cidade ou provocar o meu desaparecimento antes da abertura do evento.

Então vou desabafar, mesmo que o meu Rotary Club fature com a venda dos bolinhos de carne que eu faço, mas a Oktoberfest não é coisa nossa, não é algo que veio com os nossos alemães. É bávaro, assim como o Bayern München e a Hoffbräuhaus.

E é errado que nós a comemoremos?

É e não é.

É porque é algo “importado”, nada a ver conosco (ou com nossos antepassados).

E não é porque que é algo que já possa ser considerado como uma tradição nossa. E porque é um alento financeiro imprescindível. No ano passado, nosso Rotary Club lucrou uns bons trocados com a venda dos meus bolinhos de carne. A primeira Oktober brasileira surgiu para reconstruir a Blumenau que fora arrasada pelas lamacentas águas do Itajaí-açu. E foi algo que deu certo.

Ou seja, este é um desabafo, mas peço a solidariedade dos meus leitores para que não me delatem e permitam que tais festas continuem a serem realizadas.

Tanto porque eu me divirto um bocado nelas.
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