domingo, 10 de janeiro de 2010

Absolvidos pela Morte.

Difícil misericórdia tão grande quanto a da morte. Inúmeros são os casos de personagens que tiveram seus feitos superestimados após o fim de suas vidas. Bem verdade que é feio falar dos mortos, mas convenhamos, tem horas que esses exageros enchem a paciência. Alguns exemplos:

Mamonas Assassinas: banda divertida, que gravou um cd com letras engraçadas e que lhes deu projeção nacional e espaço nos pavorosos programas dominicais da tv. Até que um acidente aéreo pôs fim a tudo.

Com a morte de seus integrantes, a banda ganhou muito mais exposição na mídia, as vendas de seu disco cresceram de modo exponencial, e suas músicas adquiriam um status até meio cult.

Caso o jatinho com que eles viajavam tivesse pousado normalmente naquele dia, a banda continuaria sua trajetória, lançaria um novo disco, desta vez feito com muito mais cuidado e profissionalismo (no jargão musical, muito mais “trabalhado”), emplacariam dois ou três hits, e acabariam sofrendo o desgaste natural que este estilo música-piada comumente tem. Seu terceiro disco seria um fracasso, o que ocasionaria o fim da banda. Seus integrantes partiriam para projetos individuais.

Hoje, seriam tão famosos e conhecidos como os cantores Falcão e Tiririca.

Airton Senna: grande piloto, um dos maiores da história, apesar de apenas ter sido campeão enquanto dispunha do melhor carro. Sua morte o colocou na condição de deus encarnado, supervalorizando de modo exageradamente excessivo (pleonasmo é pouco numa hora dessas) todas suas qualidades, e fazendo com que aspectos como sua falta de ética e de caráter e sua  homossexualidade passassem despercebidos. Virou herói nacional, junto com Tiradentes e Pelé (?). Na minha Cerro Largo não existe uma rua chamada Machado de Assis e nem Paul Harris, mas Airton Senna é digno de tamanha distinção.

Caso sobrevivesse, marcaria seus primeiros pontos no campeonato de 1994 em Ímola, mas teria novamente o desprazer de ver Schumacher no alto do pódio. Só pra relembrar, nas três corridas que disputaram naquele ano, o alemão fez 30 pontos com sua Benetton-Ford, enquanto que Senna, com a super Williams-Renault marcou ZERO pontos. Terninaria o ano com um digno vice-campeonato, o que se repetiria em 95, pois não seria capaz de superar o alemão que também passaria a contar com os motores franceses. Reencontraria a glória em 96 e 97, pois a ida de Schummi para a Ferrari abriria o caminho para o penta-campeonato do brasileiro, que não teria adversários. Mas com a ascensão da McLaren, aliada à decadência da Williams, Senna passaria dois anos em branco. Faria de tudo para retornar à sua antiga equipe, algo que conseguiria, mas a sua volta coincidiria com o começo do reinado da dupla Schumacher-Ferrari. Depois de mais dois anos de maus resultados, passaria a fazer lobby para correr pela escuderia italiana. Sem sucesso, decidiria se retirar da categoria, vendo de fora a quebra de todos os récordes pelo alemão.

Entraria para a história, de qualquer forma, mas muito longe das 400 vitórias e dos 20 títulos mundiais que as pessoas afirmam que ele conquistaria.



"Putis grila, o alemão já escapou de novo..."

João Goulart: após ser eleito por duas vezes consecutivas vice-presidente da república, Jango ganhou de bandeja o cargo de chefe da nação, atuando de modo modesto, até por que não dizer sem preparo para tanto. Foi “convidado” ao deixar o país e acabou morrendo no Uruguai. Durante anos comendo apenas do bom e do melhor, sem mediar quantidades, um enfarte acabou com sua pouco expressiva vida pública.

Se tivesse sido mais comedido em sua dieta, poderia ser eleito governador após a anistia. Acabaria a vida na câmara dos deputados, tendo como grande e único “palanque” a revolução de 64, ou em alguma função pública. Ou seja, mamaria nas tetas do governo à exaustão.

Nada diferente do que é hoje o Itamar Franco.

Salvador Allende: se não tivesse se matado, teria um destino muito semelhante ao de Jango. Caso não tivesse acontecido o golpe militar, dificilmente conseguiria tirar o Chile da crise econômica da qual se encontrava, o que o impediria de eleger um sucessor da situação. Tal qual Jango, seria um pouco destacado parlamentar.

James Dean: ator mediano, com fama de galã. Sua morte livrou-o de ter que demonstrar sua falta de talento em outros filmes. Provável que, assim como Marlon Brando, morresse gordo e pobre.

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